terça-feira, agosto 03, 2004





Vejo olhos. Sem contexto, sem tempo castrador. Alguns acolhem-me com o sorriso de quem abre a porta a um amigo há muito desaparecido, outros afastam-se e escondem-se entre o espaço vazio, porém inequívoco, que nos separa. Vejo olhos, que saltam no escuro, lançando-se no abraço de outro olhar, outros ofuscados com a luz do contacto humano, procurando as sombras e evitando a vida sempre com medo. Vejo olhos. Singulares ou comuns, banais não vejo nenhuns. Vejo olhos. Olhos tacteantes e curiosos de sentir cores e amores variegados. Outros anseiam ser olhados, murmurados entre sorrisos de desejo. Alguns procuram no horizonte as palavras que gostariam ouvir de quem amam, sorvendo o belo dissipado pela imagem como um gelado saboroso que se derrete antes de ser provado. Vejo olhos.

sábado, julho 03, 2004


para Sophia…

Dei-te asas, com que, sem esforço, levantarás voo
sobre o pélago sem limites e a terra inteira.
Estarás presente em festas e banquetes,
em todas pousando nos lábios dos homens.
A ti cantarão, ao som das flautas melodiosas,
jovens amáveis, em bela harmonia.
E, quando fores para debaixo da terra sombria,
descendo à mansão gemebunda do Hades,
nem depois de morto perderás a tua glória, mas, senhor
de renome imortal, serás conhecido pelos homens,
ó Cirno, percorrerás a terra da Hélade e as suas ilhas,
cruzando o piscoso pélago estéril,
Ssm que te leve o dorso dos cavalos; enviam-te das Musas
de tranças negras os dosn esplendentes.
serás motivo de canto para quantos te conhecem
e para os vindouros, enquanto existir a terra e o Sol.

Teógnis – I, 237-252

Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Helade, Coimbra, 1998.

quarta-feira, maio 26, 2004


Glosa para ti

"Noite de envenenamento, nua penetrou nas palavras antes mesmo que saíssem do tinteiro."

Noite de envenenamento porque o tempo era de sentimentos que profusamente se estendiam sobre o seu terno manto. Nua porque sem dor, sem sol, sem armas venceu a eternidade vestida e abafada pela tradição. Penetrou porque a isso estava destinada, o seu frio feito palavra, a sua anti-luz feita imagem, a cor sem tinta porque é palavra. Nas palavras porque sem elas nada seria, o pó tudo cobriria e o dia sozinho tudo queimaria com a sua indiferença. Antes mesmo que saíssem do tinteiro porque é no momento que se forma a ilusão, é no sol que não aquece que se sente mais qualquer coisa, é antes que saíssem do tinteiro que te vejo afagar as palavras com a cor do carinho.


Vénus decapitada de forma toma-me nos teus braços ensanguentados, pelo menos, arrasta-me para um canto sem solidão onde o vermelho da dor se confunda com as linhas do teu rosto. Conforta-me sob a tua face cadavérica, sorri para o corpo abandonado que sou, e assim como um Páris egoísta eu possa estender o teu sorriso apoiado na miséria sobre o pequeno mundo que me habita e arrombar todas as portas e janelas com os raios de Sol que brotam do teu olhar de Vénus decapitada.

sexta-feira, abril 30, 2004



Miró
Banhista, 1925

A luz discorre dos teus cabelos isentos de dor e eu sorrindo ao luar tento olhar-te o sentido. Cada linha do teu corpo adquire uma importância indesejada sobre o que sei de mim. Resta-me fechar os olhos ao luar da tua alma incandescente. Encosto o vazio à palma da mão (não o contrário) porque sofro pelo teu azul, pelo teu incessante ondular terno e manso que me desarma e despe do vermelho da dor.
O espaço - abandono-o. Assim, podes sentir a poesia toda que há em estar frente ao mar à noite e em silêncio.


sábado, abril 24, 2004



Miró
Cifras e Constelações Amorosas de Uma Mulher, 1941

A Oitava Elegia
Dedicada a Rudolf Kassner

Com todos os olhos a criatura vê.
o Aberto. Só os nossos olhos estão
como que ao contrário e envolvem-na toda
como armadilhas em volta da sua saída livre.
O que no exterior está, sabêmo-lo apenas através da face
do animal; pois já em pequena
voltamos a criança e obrigamo-la a olhar para trás,
para a Forma e não para o Aberto, tão
profundo na fisionomia do animal. Liberto da morte.
Nós vêmo-la, só nós; o animal livre, pelo contrário,
tem atrás de si o seu declínio
e diante de si Deus e quando avança, avança
para a eternidade, tal como jorram as fontes.
Nós nunca temos, nem num só dia,
o puro espaço diante de nós, para onde se abrem
infinitamente as flores. É sempre mundo
e nunca nenhum lugar sem a negação: o que é puro,
o não vigiado, que se respira e
se sabe infinito e não se deseja. Em criança,
era o perder-se no silêncio disto e ser-se
despertado. Ou então morre-se e é-se.
Pois perto da morte já se não vê a morte
e olha-se fixamente para fora, com um grande olhar, de animal, talvez.
Os amantes, não fosse o outro a
encobrir a vista, estão dela próximos e assombram-se...
Como por descuido abre-se o espaço,
atrás do outro... Mas sobre esse outro
ninguém passa, e de novo se lhe faz mundo.
Sempre voltados para a Criação, nela vemos
apenas o espelhar do que é livre,
por nós turvado. Ou vemos que um animal
mudo erguendo os olhos nos atravessa serenamente com o olhar.
A isto se chama destino: estar defronte,
apenas e sempre defronte.

(...)

Rainer Maria Rilke, As Elegias de Duíno, Assírio e Alvim, 1993.
Tradução: Maria Teresa Dias Furtado

segunda-feira, abril 19, 2004


A mais bela morte que li.

«Inclinado por sobre aquele portão que dava para uma série de prados onde as cores ondulavam, este ser não me respondeu. Não me ofereceu oposição. Não tentou construir qualquer frase. Nem sequer cerrou os punhos. Esperei. Escutei. Nada surgiu, nada. Possuído pela sensação de ter sido abandonado, soltei um grito. Agora, nada mais existe. Não há barbatana [pensamento] que quebre a fixidez deste mar imenso. A vida destruiu-me. As palavras que digo já não têm qualquer eco. De facto, trata-se de uma morte bem mais verdadeira que a dos amigos, que a da juventude. Sou a figura enfaixada de barbearia, e ocupo pouquíssimo espaço.»

Virgínia Woolf, As ondas.
Tradução de Lucília Rodrigues.

domingo, abril 18, 2004



Mark Rothko - Orange and Yellow, 1956

(nota para não escrever)

Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode escrever-se ainda por ilusão criminal: às vezes imagina-se que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, se embebeda o espírito, libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se sempre para estar só. A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita, como a religiosidade suspeita da religião e demonismo da demonologia. A escrita – inferior na ordem dos actos simbólicos – concilia-se mal com a metamorfose interior – finalidade e símbolo, ela mesma, da energia espiritual. O espírito tende a transformar o espírito, e transforma-o. O resultado é misterioso. O resultado da escrita, não.

Herberto Helder, Photomaton & Vox, Assírio & Alvim, pp. 82-83.

sexta-feira, abril 16, 2004


Sigmar Polke - magnetic landscape

A polifonia do regresso, oculta pelo vermelho da dor, aguarda o momento exacto para se manifestar, o raio de luz correcto para oferecer o tom melancólico da memória onde o momento é um regresso a outro momento. Enquanto as ondas se quebram contra as rochas o tempo abandona-se no oceano escuro e profundo que fomos um dia.
Quanto mais vivemos mais regressamos, pois cada primavera que passa perde a originalidade da anterior, todavia adquire um tom mais familiar que nos envolve sem receios como uma tarde passada à sombra de um sobreiro onde o único movimento perceptível é o viajar das nuvens e a cor sempre a mudar, o céu, as árvores, as searas e até o chão da estrada que pisamos antes, variam de cor conforme o sol se atravessa do esplendor ao abandono.

sábado, abril 03, 2004


A palavra

A palavra resolveu aparecer no meio da praça quando o padeiro saiu para fumar um cigarro ao ar fresco da noite, todavia ele distraído não reparou logo nela, pois tinha os olhos postos na lonjura das estrelas e na densidade das argolas de fumo que ia largando para o ar. A palavra ignorada fez-se amarela e brilhou como um pequeno astro na quietude nocturna. Foi nesse momento, em que mudava de cor e sorria para o padeiro, que a palavra foi vista pela primeira vez por olhos humanos. O Baptista esfregou os olhos estremunhado, porque lhe parecia que estava uma palavra no meio da praça e era amarela e sorria-lhe com o seu significado desconhecido. O padeiro achou aquilo estranho e voltou a entrar na padaria, pensando que o Horta andava a cortar os bagaços com alguma coisa forte demais. Atirou a beata para o chão e regressou ao calor dos fornos, à poeira branca da farinha que impregna todas as padarias e foi amassar um pão em forma de palavra.

Algumas horas depois o Zeca da mercearia atravessava a praça, trazendo os olhos carregados de ramelas e com as ideias adormecidas, quando viu a palavra no meio da praça. Quis lê-la, mas não conseguiu, ficou a olhar para a palavra com se ela não pertencesse àquele lugar, no meio da praça, uma palavra sem nexo nem sentido. Para o Zeca as palavras estavam todas fechadas nos cadernos de contas da mercearia ou coladas nos rótulos coloridos das embalagens espalhadas nas montras ou nos sinais luminosos das grandes cidades. O Zeca só tinha ido à cidade grande duas vezes: uma quando a mãe estava para morrer e a mandaram numa ambulância para a cidade porque lá era melhor, mas dias depois o Zeca teve de ir buscá-la dentro de um caixão, a outra vez foi à cidade grande para comprar sabonetes à fábrica, que ia fechar e estava a vendê-los ao desbarato.

Por esta altura, a D. Margarida vinha abrir o quiosque que ficava quase no meio da praça mesmo ao pé da palavra. Viu o Zeca, mas não a palavra, pois estava cheia de pressa, visto que os jornais deviam estar a chegar. Cumprimentou o Zeca com um “Bom Dia” rápido e seco e começou a abrir as portadas verdes, quando já o sol tocava o cimo do quiosque. Na verdade, o cimo do quiosque tem uma história engraçada, era uma bola vermelha de metal que o falecido Sr. Luís ali tinha colocado quando comprou o quiosque e achou que lhe faltava qualquer coisa. Perguntou à filha pequenita o que ela gostava que ele fizesse no quiosque e a miúda deu-lhe aquela ideia engraçada. Contudo, a D. Margarida nunca tinha olhado para a bola vermelha, nem quando comprou o quiosque ao Sr. Luís.

Àquela hora já o carteiro Albernás tinha feito meia vila e ia deixar uma encomenda na mercearia do Zeca. Porém, ao ver o merceeiro parado no meio da praça a olhar a palavra, foi ter com ele e juntou-se-lhe no ar pasmado de quem tenta ler a palavra amarela, mas não consegue.

E assim, a gente da aldeia foi-se juntando à volta da palavra que agora estava um pouco esverdeada, e todos tentavam ler a palavra mas não conseguiam. O mais estranho era que a palavra não estava escrita em lado nenhum, estava ali no meio da praça sem cartaz nem papel a acolhesse. Aí por volta da hora do almoço, já tinham chamado a guarda republicana, o Bernardo e o Perdigueiro, que como não tinham conseguido passar pela tasca do Horta para beberem o bagaço matinal estavam maldispostos e rezingões. Mesmo assim, também eles tentaram ler a palavra sem sucesso.

Começou a chegar gente das aldeias vizinhas para verem aquele acontecimento estranho, e poucos dias depois chegou a polícia, os jornais, as televisões, as rádios e os curiosos da cidade que tinham o fim-de-semana livre e vinham mostrar a palavra aos miúdos.
O estado não prestou declarações, mas o país inteiro viu no telejornal o Baptista esfregar os olhos com a cara muito vermelha dos fornos de lenha e dizer “Fui eu o primeiro a vê-la. Estava ali no meio da praça e brilhava tanto que chamei logo a guarda, não fosse uma estrela caída da noite e viesse para queimar a aldeia toda.” D. Margarida perguntava aos senhores dos jornais se a fotografia dela ao lado da palavra ia surgir no jornal, para poder avisar a filha que já não via à três anos, porque estudava na cidade grande e nunca mais quis voltar à aldeia.

Mandaram vir peritos em línguas mortas e vivas, cientistas, linguistas, alfabetistas, alfarrabistas, antropologistas, aldrabistas e até arquitectos-paisagistas, mas ninguém conseguia ler a palavra. Esta estava azul, aquele azul do mar quando o céu está limpo e é Verão. O exercito ergueu uma cerca à volta da praça para mais ninguém ver a palavra, nem poder tentar adivinhar ao calhas o que queria dizer.
Tentaram levar a palavra dali, com gruas e guindastes mais altos que o monte das cabras, onde o Caeiro passava os dias a ver a vila de longe deitado ao comprido na erva guardando o seu rebanho de pensamentos. Não conseguiram. A palavra não saía dali e ninguém a percebia.

O governo abriu um fórum especial para resolver o que fazer com a palavra e decidiu evacuar a cidade e pedir ajuda a outro países maiores e que tinham mais cientistas e peritos do desconhecido. O Baptista, o Zeca, a D. Margarida, o carteiro Albernás, a tasca do Horta e o quiosque verde com a bola vermelha no cimo foram todos transferidos para uma réplica exacta da vila, toda igual, mas sem a palavra no meio da praça. Isolou-se a área quilómetros à volta e tiveram de afastar o Caeiro e o seu rebanho para outro monte.

A palavra foi assunto prioritário no conselho de segurança das Nações Unidas onde se resolveu esconder a palavra de toda a gente.

Surgiram seitas e religiões que afirmavam em placares nas manifestações que a palavra dizia o fim do mundo. Países maiores e mais fortes começaram a declarar que a palavra era deles, para a guardarem e estudarem em segredo. O estado assustado e com receio de uma invasão demitiu-se e passados um ano ou dois o país mais forte tomou conta da palavra, da vila, dos montes à volta, onde o Caeiro pastava o seu rebanho e tinha saudades de ver o sol a pôr-se.

Então, outros países que também queriam a palavra, afirmavam que a palavra era Deus. A palavra que já não era amarela, nem verde, nem azul, mas sim negra, tão negra que cabia lá o mundo todo bem apertadinho. Nesta altura, começaram as guerras por causa da palavra. Num dia de Verão quente ensolarado alguém meteu uma bomba nas ruínas da vila e foi tudo pelos ares, a palavra, a praça, a vila, o exército, os muros, as paredes, a dúvida, a ignorância, o medo e as árvores que salpicavam os montes à volta.
Da palavra mais ninguém falou, porque estavam todos ocupados com a guerra e já não se lembravam porquê.

sexta-feira, março 12, 2004


A decisão de me atirar ao rio foi precedida do sorriso mais genuíno e selvagem que alguma vez tinha oferecido à existência. Soube instintivamente que se mergulhasse naquelas águas esverdeadas o vermelho da dor iria desaparecer e perder a cor que o sol lhe dava naquela manhã fria de Inverno. Por outro lado, tudo o que queria ser era água. Água que caía e me lavava o vermelho da dor, era na água do rio que me via reflectido sem o vermelho da dor, era na água que o sol nascia naquela manhã fria de Inverno, era na água que o tempo se repetia sem vacilar nunca, pois o tempo só para quando já não somos. Parei de caminhar e virei-me de frente para o rio. Os meus passos desencontrados cessaram o esforço terrível que obrigava as minhas pernas geladas e molhadas a fazer. Ainda pensei em tirar a roupa, imaginando que o vermelho da dor se esvairia mais depressa, mas estava frio, muito frio que me gelava todo como um pinheiro Invernal carregado de neve, esforçando os braços-ramos a se erguerem contra o vento e desenhando a sua sombra pesada de neve no manto branco que nas terras geladas do norte é o chão que todos pisam. Sorri e mergulhei.

sábado, março 06, 2004


Nessa manhã fria de Inverno apetecia-me segurar o leme sem lhe dar direcção alguma. Deixava o rio tomar conta desse assunto menor, porque, para onde ia não era importante, queria apenas sentir o passar das águas por baixo do casco do pequeno barco, como um vasto lençol onde estendo a minha calma e tranquilidade. Havia algum tempo que tinha ganho gosto à vela e passava os fins-de-semana enfiado no Tejo, vendo a cor das pedras nas margens mudar conforme o sol se movimentava sobre o rio, e pela manhã, com a maré baixa, via-se bem as pedras de um branco claro e quase concreto que sem ser frio pouco ou nada coloria a minha tranquilidade verde clara. Ia para ali para esquecer o tempo e ler na vela esticada pela brisa da manhã a quietude cor-de-rosa que não se encontra nas flores. Suavemente, deixava cair uma mão para dentro do rio, e olhava as margens, sempre margens, sempre tão cheias da certeza de serem uma fronteira entre o que se dissolve nos sonhos e o ruído cor-de-tijolo da cidade. Por isso, não reparei naquele sujeito vermelho-púrpura, caminhando pela margem, sorrindo à chuva.

quarta-feira, março 03, 2004


O blog de uma grande amiga do Incontornável.

terça-feira, março 02, 2004


Divaguei pela tristeza que me rodeava como uma alga verde escura, brilhante e lustrosa viajando pelo oceano. Sem saber para onde nem para quê, aquele continuar a andar, aquele movimento involuntário era a única coisa que queria fazer. Caminhei até sentir que ninguém me olhava o vermelho da dor, até que o sol me queimasse a alma. Discreto, o rio assistia aos meus passos perdidos, à desordem incolor que me invadia e me submergia numa fria angústia de manhã invernal. Sentia-me pesado, carregando o abalo das pedras constantemente golpeadas pelo mar. Aguentando o frio sem o suportar, subi a gola da camisola para cima e concentrei-me em não pensar em nada. Evitava o sol, que subia ainda a este da minha alma, e segredava-lhe o vazio pesado e negro que me saía pelos olhos em água salgada que não afluía do mar, mas do vermelho da dor. Os pés arrastavam-se sem leveza porque as perdas no chão não lhes sorriam, antes os fustigavam e os faziam tropeçar, pintadas de branco sujo, carregadas de abandono, condenadas a serem pisadas e pontapeadas por todos.
Perdi algo que pouco tinha - a noção de tempo. Não sei se andei horas ou dias ou anos, porque não sei o que são horas nem dias nem anos. Apenas sei que no Verão a noite é negra e o dia é eternamente queimado pelo sol impiedoso e de Inverno as manhãs são vazias de sonhos porque o frio entra por todo o lado, deixando um rasto invisível de angústia nas paredes dos prédios onde morremos sem dar por isso. No Inverno, a chuva cai quando quer sem aviso, lavando a memória que o mundo tem das coisas. Por isso, naquela manhã fria de Inverno, caminhava sem me lembrar do vermelho da dor e sorria às gotas de água que me aconchegavam o esquecimento.

domingo, fevereiro 29, 2004


Saí do silêncio embrulhado no amarelo das paredes. Tinha deixado cair o instante e perdido o olhar dela na multidão ruidosa que se interpôs, parede suja e alta como a lua numa noite de Verão. Ouvia-me a sussurrar qualquer coisa, mas não era nada, não é nada, não será nada, nem agora nem em tempo algum. Pelo menos, nada que ela ouvisse embrulhada no amarelo das paredes, perdida de mim por mim, agora e sempre. A porta unilateral esperava-me ansiosa de ser aberta, verde ou azul, perfumada de esperanças vãs, esperando algo mais que uma corrente de ar, queria a minha mão, o meu braço inteiro a abri-la. Desejava-me a passar por ela, deixando para trás o amarelo das paredes, o olhar dela, o ruído da multidão. Por isso parti, saí, deixei, larguei, perdi, ganhei, passei para o outro lado. A porta verde ou azul sorria de ser aberta e transposta, deixando a dor, a saliva de desejar um beijo, no outro lado, perto do amarelo das paredes, perto dela, perto da boca dela, agora e sempre.

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